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A igreja da Sé
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde instalou-se a Sé em meados do século XVIII 1.

INFÂNCIA E JUVENTUDE

Em 22 de setembro de 1767, numa casa modesta na Rua da Vala, no Rio de Janeiro, um menino nasceu de um casal de mulatos livres, Vitória Maria da Cruz e o alfaiate Apolinário Nunes Garcia 2.

Vitória era filha de Joana Gonçalves, escrava de Simão Barbosa Gonçalves. 3. Nascida na localidade de Cachoeira do Campo, freguesia de São Gonçalo do Monte, na província de Minas Gerais, recebeu o batismo em 1739. Aos 10 anos, viajou com o proprietário de sua mãe para o Rio de Janeiro. Apolinário era filho de Ana Correa do Desterro, também escrava. Nascido em Campos dos Goytacazes, cidade do Norte Fluminense 4, foi batizado em 1743, na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, na Ilha do Governador, hoje um bairro do Rio de Janeiro. Vitória e Apolinário casaram-se em 1762, na igreja de Santa Rita, no Rio de Janeiro; ele solteiro e ela já viúva do tenente Raimundo Pereira de Abreu. A certidão do casamento dos dois registra que eram filhos de "pai incógnito", uma indicação de que podem ter sido filhos dos proprietários das suas mães.

O menino, que nasceu no dia de São Maurício, foi batizado José Maurício Nunes Garcia, em 20 de dezembro de 1767, na Sé da cidade, a atual igreja de Nossa Senhora do Rosário.

Sobre a infãncia e a juventude de José Maurício há poucas informações documentadas; são os primeiros biógrafos e contemporâneos, Januário da Cunha Barbosa 5 e Manuel de Araújo Porto-Alegre 6, que apesar do caráter laudatório das narrativas, vêm a fornecer alguns fatos sobre a educação e indícios da formação do caráter do compositor.

De acordo com Porto-Alegre, o rapaz "desde a mais tenra infância" tinha "belíssima voz e cantava admiravelmente"; "prodigiosa memória [...] em reproduzir fielmente tudo quanto ouvia executar", e "improvisava melodias e tocava viola e cravo sem jamais ter aprendido" 7.

Segundo ambos, uma tia, cujo nome é desconhecido, irmã de Vitória Maria, vivia com a família. Após a morte de Apolinário, em 1773, mãe e tia criaram o menino, e, quando notaram o seu precoce talento musical, o encaminharam, ainda criança, à aula do de música do compositor mineiro Salvador José de Almeida e Faria, um renomado professor de música da época 8. Para complementar a educação, ele frequentou as "Aulas Régias", tomando lições de História, Geografia, Francês, Italiano, Gramática latina com o padre Elias, Filosofia Racional e Moral, com o Dr. Goulão 9, e, já adulto, Retórica com Manuel Inácio da Silva Alvarenga 10. Teria também ele tido lições de Inglês e Grego, mas sem um bom aproveitamento.

Os dois biógrafos são também unãnimes no elogio ao rápido aproveitamento do jovem nas disciplinas Gramática Latina e Filosofia Racional e Moral, atestando que ambos os mestres o apontaram capaz de os substituir nas respectivas cadeiras, e que Goulão tornou efetivo o convite, mas José Maurício o recusou. A razão da recusa se deve ao fato de que desde os doze anos ajudava nas despesas domésticas com o que recebia como professor de música, conforme o testemunho do aluno Bonifácio Gonçalves 11.



Igreja de Santa Rita
(Para se obter a descrição de alguns lugares, movimente o mouse sobre a figura)
A igreja de Santa Rita, no centro do Rio de Janeiro, onde casaram-se os pais de José Maurício 12.


1 ENDER, Thomas. Viagem ao Brasil nas Aquarelas de Thomas Ender. Apresentação de Robert Wagner e Júlio Bandeira. Petrópolis: Kappa, 2000. v. 2, p. 433.

2 Segundo o Dr. José Maurício Nunes Garcia Jr., neto de Apolinário, o avô exercera o ofício de mestre de campo, o que indica um passado militar antes de se tornar alfaiate. GARCIA Jr., José Maurício. Apontamentos Biográficos. In MURICY, José Cândido de Andrade et alii. Estudos Mauricianos. Rio de Janeiro: INM/FUNARTE/PRÓ-MEMUS, 1983. p. 15.

3 O musicólogo Francisco Curt Lange encontrou o suposto registro de batismo de Vitória Maria da Cruz e o publicou na revista Barroco, Belo Horizonte: Imprensa Universitária da UFMG, 1981, n. 11, pp. 91-94. Embora autêntico, registra o nascimento de outra criança com o mesmo nome. A autenticidade foi contestada por Cleofe Person de Mattos, em MATTOS, Cleofe Person de. José Maurício Nunes Garcia - Biografia. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Biblioteca Nacional, 1997, p. 205.

4 GARCIA Jr., op. cit., 1983. p. 15.

5 Januário da Cunha Barbosa (Rio de Janeiro, 10.8.1780 - 22.2.1846) "[...] foi pregador régio da Real Capela, professor de filosofia e um dos fundadores do Instituto Histórico [e Geográfico Brasileiro] (1838). Tribuno, envolveu-se no movimento pela independência, foi preso em 1822 e exilado por motivos políticos. Retornou ao Brasil em 1823, alcançando compensações, como a direção da Biblioteca Nacional e várias condecorações". MATTOS, op. cit., 1997. p. 213.

6 Manuel de Araújo Porto-Alegre - barão de Santo Ângelo - (Rio Pardo (RS) 21.11.1806 - Lisboa 29.12.1879) "[...] Homem de cultura, orador no Instituto Histórico, pintor laureado - aluno de Debret - professor e diretor da Escola de Belas Artes, membro de organizações internacionais e cônsul do Brasil em Berlim e Lisboa, onde faleceu. Foi condecorado com a Ordem da Rosa e a Ordem de Cristo". MATTOS, op. cit., 1997. p. 213.

7 PORTO-ALEGRE, Manuel de Araújo. Apontamentos Sobre a Vida e as Obras do Padre José Maurício Nunes Garcia. In MURICY, op. cit., 1983, p. 23.

8 Professor de música, construtor de instrumentos musicais. Nascido em 1732 em Cachoeira do Campo, Minas Gerais, faleceu no Rio de Janeiro em 12 de abril de 1799. Vivia maritalmente com Felícia de Almeida e Faria, com quem teve dois filhos: Augusto Procópio de Almeida e Clementina Calista Ermuta de Almeida. Em função da naturalidade do mestre, muito se discorreu a respeito da influência da escola mineira no estilo de José Maurício. A publicação do inventário de Salvador José por Nireu Cavalcanti em 2004 (até desaparecer, o original estava no Arquivo Nacional, maço 313, n. 5614) enfraquece essa tese, por conter o referido inventário papéis de música com composições européias em grande maioria, e nenhuma de autor mineiro. CAVALCANTI, Nireu. O Rio de Janeiro Setecentista: a Vida e a Construção da Cidade da Invasão Francesa até a Chegada da Corte. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004. p. 415.

9 Agostinho Corrêa da Silva Goulão, formado na Universidade de Coimbra, chegou ao Rio de Janeiro em 1789. Ocupou a cadeira de Filosofia Racional e Moral (Perereca, p. 774). Em setembro de 1822 foi eleito deputado à Constituinte pela província do Rio de Janeiro. MATTOS, op. cit., 1997. p. 215.

10 Manuel Inácio da Silva Alvarenga (Vila Rica, 1749 - Rio de Janeiro, 1814). Um dos principais poetas árcades brasileiros, estudou Matemática e Direito Canônico na Universidade de Coimbra, em Portugal, entre 1773 e 1776. De volta ao Brasil, participou da Arcádia Romana em Vila Rica, com o pseudônimo de Alcindo Palmireno. Na década de 1780 foi professor de Retórica e Poética no Rio de Janeiro. Em 1786, foi fundador e secretário da Sociedade Literária, o que o levou à prisão entre 1794 e 1797, acusado de conspiração contra o governo; foi solto por clemência de D. Maria I. Em 1813-14 foi colaborador de O Patriota, a primeira revista de cultura impressa no Brasil. Teve publicados os livros: O Desertor (1774), O Templo de Netuno (1777), A Gruta Americana (1779), Às Artes (1778) e, o mais famoso, Glaura (1799). MIRANDA, Antonio. Poesia Ibero-Americana. Acesso: 15/02/2015.

11 O aluno testemunha no processo da genere do compositor, ter recebido lições de música por doze anos. José Maurício tinha 24 anos de idade na ocasião. MATTOS, op. cit., 1997. p. 40.

12 HILDEBRANDT, Eduard. O Brasil de Eduard Hildebrandt. Apresentação de Gilberto Ferrez. Rio de Janeiro: Record, 1991. p. 41.


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